| Dividindo os holofotes: conduzindo a terapia analítico-comportamental de grupo |
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| Escrito por Fabiane Silveira |
| Dom, 21 de Fevereiro de 2010 22:35 |
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O trabalho se inicia com a formação do grupo. Grupos fechados, isto é, aqueles nos quais os participantes são escolhidos antes do início da intervenção, são mais comumente descritos na literatura, mas relatos de experiências de grupos abertos, que permitem a entrada de novos participantes em qualquer momento do processo, são também conhecidos. A escolha por grupo homogêneo ou heterogêneo também implicará em algumas vantagens e desvantagens. Em minha experiência profissional sempre optei por selecionar participantes com algumas características similares, como por exemplo, condição socioeconômica e queixas apresentadas. Outras variáveis como idade, sexo e, se já realizou atendimentos anteriores, não necessariamente foram controladas, o que garantiu discussões e reflexões ainda mais ricas. Grupo formado, novas decisões a tomar: em qual momento será iniciada a análise funcional? Em uma fase anterior às sessões grupais, o terapeuta pode dar início à análise, partindo de algumas sessões individuais, com os objetivos de formalizar o contrato terapêutico, esclarecer as queixas, mapear o repertório do cliente e variáveis determinantes. Essa fase prévia dará indicativos sobre dificuldades e reservas comportamentais , ou seja, comportamentos que maximizam o acesso a reforçadores positivos, que poderão fazer parte das discussões do grupo. Nessa fase, terapeuta e cliente começam a estabelecer possíveis objetivos individuais que nortearão o trabalho do terapeuta, ainda que todo o trabalho também seja orientado por um objetivo do grupo. Vamos ilustrar com um exemplo, a formação de um grupo de orientação de pais – algo constante na minha vida profissional. Temos cinco clientes hipotéticos, para cada um foram estabelecidos objetivos diferentes: como negociar com o filho adolescente as saídas para as “baladas”, como formular e fornecer consequências para regras, fortalecer a comunicação entre mãe e filha, aumentar as ocorrências de expressões afetivas entre pai e filho e, como garantir uma disciplina consistente. A atuação do profissional terá que ser orientada também por objetivos do grupo, que congreguem o emaranhado de objetivos individuais. Para o exemplo apresentado, os objetivos de grupo poderiam ser representados pelo aumento na ocorrência de interações positivas e um equilíbrio maior de reforçadores. Grupo formado, contrato terapêutico estabelecido, análise funcional iniciada, tudo ok. Vamos nos haver com as sessões. No geral, tive contato com grupos extremamente falantes, algo a meu ver, muito bem vindo. Uma agenda de atividades apresentada no início de cada sessão é algo providencial, deixando momentos livres para que os próprios clientes possam sugerir quais rumos a sessão tomará.
Engana-se quem pensa que no início da terapia analítico-comportamental de grupo os clientes apresentam verbalizações concisas, estritamente dentro dos objetivos. Observamos ao contrário disso, verbalizações longas, descrições de comportamentos de terceiros, informações do cotidiano, para não mencionar a recusa em se expor. Cabe ao terapeuta modelar novos repertórios como, ouvir a opinião de todos, apresentar verbalizações descritivas de eventos públicos e privados, e o cerne para um bom funcionamento do grupo, garantir formação do vínculo entre os próprios clientes. O vínculo entre os clientes, algo grosseiramente análogo ao vínculo com o terapeuta, pode ser entendido como acolher e compreender as experiências do outro, mesmo após situações de discordâncias e descrições de consequências que mantém as queixas. Com o andamento das sessões o grupo passa a ter a função de evocar comportamentos saindo de um papel de ouvinte, exercendo controle de estímulo e fonte de reforçadores ou aversivos. É nesse momento, retomando o título desse ensaio, que os holofotes são compartilhados: terapeuta e clientes passam a interagir de forma colaborativa, isto é, os clientes além de serem ativos na alteração das contingências que operam em suas próprias vidas, também atuam como auxiliares na identificação das contingências presentes na vida dos demais participantes. Intervenções de grupo são consideradas mais próximas ao ambiente natural dos clientes em função da interação estabelecida e da exposição a diferentes modelos, o que facilitaria a generalização. A exposição a diferentes modelos representa apenas uma dentre tantas vantagens do grupo, tanto para o terapeuta quanto para os clientes, que se soma a oportunidade da observação direta de comportamentos apresentados nas interações sociais, maior diversidade de procedimentos que possam ser utilizados, contando com a colaboração de auxiliares, como ensaios comportamentais e dinâmicas. Para o cliente, o grupo propicia um ambiente acolhedor para se expor e treinar novos comportamentos; contar com uma diversidade de alternativas comportamentais a serem seguidas; feedback e reforçamento liberados pelos membros do grupo; e diminuição no custo da intervenção pela racionalização do tempo do terapeuta. Logicamente que o trabalho com grupos não vive só de glórias... igualmente muitas são as desvantagens em relação ao atendimento individual. Dentre as desvantagens podemos citar a impossibilidade de alteração imediata de procedimentos que não estejam produzindo os efeitos almejados, dificuldades ao conduzir um procedimento refinado de modelagem, impossibilidade de estender a discussão sobre assuntos de interesse específicos de cada cliente, ou seja, que destoem fortemente do objetivo geral do grupo, entre outros. Finalizo retomando as perguntas iniciais. Estudos sobre generalização atestam a eficácia de intervenções grupais na produção de repertórios resistentes à extinção, garantindo o que Skinner definiu como comportamentos fortes. A ampliação de repertório é em grande medida, facilitada pela diversidade de modelos e operações de controle de estímulos a que o indivíduo é exposto. Contar com uma audiência reforçadora ampliada, que inclui o terapeuta e demais clientes, representa uma condição impar que favorece a diminuição de comportamentos mantidos por reforço negativo e aumento de comportamentos positivamente reforçados, o que confere à terapia de grupo, uma qualidade notória, salvo observadas as indicações e restrições aqui mencionadas. Sobre a autora |
| Última atualização ( Dom, 11 de Julho de 2010 11:56 ) |










Como uma “sistematizaçãozinha” nunca desagrada até os menos radicais dos behavioristas, uma sequência de temáticas a serem abordadas no decorrer do processo terapêutico e por que não, etapas a serem seguidas durante as sessões - elegantes propostas são encontradas em Bolsoni-Silva e Bitondi (2007) e Starling (2002) – podem ser planejadas e discutidas com os clientes. As sessões de um grupo composto por jovens com dificuldades de estabelecer interações sociais, poderiam seguir, a título de ilustração, a seguinte estrutura: discussão de momentos relevantes da semana; discussão das tarefas de casa; discussão de novas aquisições e dificuldades comportamentais; através de dinâmicas, filmes, poesias, etc, garantir a exposição a situações difíceis para treino de novos repertórios; proposição de tarefas para todos e avaliação da sessão, oportunidade para que os clientes descrevam aspectos positivos ou negativos do trabalho conduzido.