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O que é ser normal?
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Escrito por Paulo Abreu   
Sáb, 26 de Novembro de 2011 11:45
A capa da edição Revista Veja nº 2244 é bastante sugestiva para a área, especialmente quando pergunta “O que é ser normal?”. Trata-se de uma matéria que começa ressaltando os avanços da genética molecular, microscópios com acesso a nanoestruturas cerebrais, neuroquímica, neuroimagem, e tecnologias afins. O jornalista até que se esforçou em comentar o conceito de loucura ao longo da história, mas invariavelmente, terminou com o mesmo tom que começou o texto. Toda a discussão vai sendo conduzida de modo a sugerir ao leitor que a doença mental é normal e que acomete a maioria de nós, visto que a as investigações científicas estariam descobrindo dentro do organismo que todos temos problemas. 
 
 
Bom, muitos profissionais da área da saúde ficariam de cabelo em pé com essa afirmação. Pretendo rapidamente explicar as ideologias e a real ciência envolvidas nisso tudo, de forma a prevenir algumas possíveis consequências desse do discurso da “doença mental”. 
 
 
 
 
1 . “Se não existe doença mental, o que existe então?”

Essa é uma questão mais complexa, pois o conceito de doença mental teve múltiplas determinações ao longo da história.     
 

A medicina evoluiu categorizando as doenças, das quais se desejava conhecer a causa, com vistas a aplicar o tratamento adequado. Muitas doenças foram descobertas, e suas causas ou etiologia, foram gradativamente sendo conhecidas. 
 

Com a psiquiatria foi diferente. Os grandes manuais diagnósticos da psiquiatria como o DSM IV ou o CID 10, bem da verdade, chamam os problemas como a depressão, a ansiedade ou a esquizofrenia, de transtornos ou síndromes, e não de doenças. Isso porque as síndromes, por não terem marcador biológico comprovado, são agrupadas unicamente com base no conjunto de sintomas. 
 

2. “Mas esse não é o curso natural da evolução da medicina? Com as novas tecnologias não encontraremos as causas orgânicas?”
 

 

A verdade nisso tudo: Em mais de 60 anos de existência da moderna psiquiatria (marcada pela descoberta do primeiro psicofármaco com efeito clínico atestado), quase que nenhuma das chamadas doenças mentais teve causa orgânica comprovada. Doença é uma disfunção no organismo com causa etiológica muito bem definida, identificada por exames clínicos quase que de forma inequívoca. Febre tifóide é uma doença, causada pela bactéria Salmonella typhi; dengue é outra doença, causada pelo arbovírus da família Flaviviridae. Mas qual é a causa comprovada da depressão? Qual é o exame clínico que a detecta?  
 
 
Certamente a influência da indústria farmacêutica contribui enormemente para a disseminação da ideia de "doença orgânica que necessita de um tratamento medicamentoso", mesmo influenciando a publicação dos artigos em grandes revistas científicas, como afirma médica Marcia Angell, ex-editora-chefe do conceituadíssimo periódico científico The New England Journal of Medicine. Afirmar isso não é nenhum jargão, assim como afirmar que carros poluem o meio ambiente. O discurso da doença gera dinheiro, e isso é fato. 
 

Na medicina como um todo, muitas doenças foram categorizadas inicialmente como sendo síndromes antes de ascenderem ao posto de patologia. Mas na psiquiatria, até agora isso não ocorreu. Os “mistérios do cérebro” têm sido um coringa que explica tudo, e que promete tudo. E falar superficialmente de neuroimagem, nanoestruturas cerebrais ou neuroquímica é algo sedutor, que a mídia desavisada (ou muito avisada, dado o sensacionalismo que provoca no público) rapidamente reproduz. Mas apesar de todo esse apelo, felizmente, muitos cientistas não entendem as neurociências dessa forma simplista. E aqui se encontram muitos psiquiatras críticos e psicólogos de orientação científica. 
 

Na maioria das vezes nossa mídia entende que ciência é somente esse tipo de medicina reducionista, e que o contraponto não-científico “pensante” disso é a psicanálise, ainda que outras psicologias, de reconhecida tradição empírica científica, existam com enorme força em nosso país (um bom livro sobre o tema é o Livro Negro da Psicanálise). Felizmente o resto do mundo desenvolvido não pensa dessa forma – como os próprios Estados Unidos citados na matéria. 
 

3. “Mas eu tenho depressão, e sei que doença mental existe sim porque só Deus sabe o quanto eu sofro!”.
 

O fato de não chamarmos a depressão de doença, por exemplo, não tem nada a ver com o reconhecimento de que essa realidade existe, e que causa enorme incapacitação e sofrimento. Mais do que isso, ela tem que ser tratada pelos especialistas competentes – psicólogos ou psiquiatras. 
 

Mas você não sofre porque tem um problema no seu cérebro, e sim porque os acontecimentos atuais em sua vida, e/ou ao longo de sua história, levaram-lhe a atualmente a se sentir muito triste a maior parte do tempo.
 

A ciência comportamental, ao seu turno, em mais de 50 anos de pesquisas, provou que os problemas de comportamento são multideterminados, e assim nunca seriam de causa unicamente orgânica. Além da suscetibilidade genética, a história de aprendizagem e a cultura prestam enorme contribuição para o fenômeno. Afirmando isso, estou dizendo que tem campo de trabalho frutífero para a pesquisa de todas as áreas interessadas envolvidas.
 
 

4. “Eu tomo o remédio e ele funciona, por isso atesto que a causa do meu transtorno de ansiedade é mesmo orgânica”.
 

Os remédios psiquiátricos foram uma grande aquisição da ciência. E a realização de agrupamentos sindrômicos permite que se pesquise classes de medicamentos para transtornos específicos. Assim, quando prescritos de forma criteriosa e responsável, são um excelente arsenal terapêutico que o clínico pode contar. Mas porque um remédio ansiolítico funciona, não quer dizer que a causa seja um problema neuroquímico no seu cérebro.  O problema está na sua relação com o mundo, e o que acontece no seu cérebro em nível metabólico, é consequência disso tudo, e não a causa. A título de comparação, um remédio antigripal ajuda muito na gripe, mas não quer dizer que ele atue na causa da gripe. 
 

5. “Mas então qual é a causa das síndromes?”
 
 
Para cada caso, as determinações serão sempre particulares. Dois casos de depressão nunca terão a mesma causa. Nossa bagagem genética, história de aprendizagem e cultura são diferentes, sempre singulares.
 

6. “Se é assim, não existiria um tratamento confiável?”
 
 
Existe sim. As terapias comportamentais e cognitivas, e alguns remédios psiquiátricos, apresentam resultados bastante animadores em centenas de pesquisas realizadas em todo o mundo. Dadas práticas em psicologia e psiquiatria têm sido chamadas de práticas baseadas em evidências.
 
 

 

Comentários  

 
+5 #2 Excelente...Alexandre Dittrich 28/11/2011 21:13
Excelente texto, Paulo! Vale por uma aula... Parabéns!
Citação
 
 
+1 #1 O que é ser normalAlexsandra 28/11/2011 16:58
Parabéns! O texto é de excelente qualidade e esclarecedor.


Seria excelente publicá-lo na referida revista, visto o número de pessoas que hoje fazem uso destes medicamentos como se fossem a salvação de suas vidas. A maioria não entendem que na verdade os sintomas são máscarados com o efeito destas drogas e não atuam na causa. Uma parcela destes usuários não possuem as informações, mas grande número deles usam como "bengá-las" buscando uma resolução rápida, como apertando um botão e não querem verdadeiramente enfrentar a real causa das suas "sindromes", pois isso exige força de vontade, disciplina, foco para vencer seus "fantasmas" internos que são verdadeiramente a causa.

Obviamente, como mencionado, em determinados casos se faz necessario o auxilio destes medicamentos e o uso responsavel é importante, porém existe sim muita gente já dependente deles como solução.
Citação
 

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